Quinta-feira, Agosto 06, 2009

O AMANHÃ A DEUS PERTENCE

Foto: O Dia Online

Faço parte de uma “Escola do Amanhã”. Porém, só vi mudança no título e na enxurrada de capacitações, aos sábados com pagamento de encargos, para desenvolver projetos que surgem iguais aos “Gremlins”, lembram? Sinto como se mais uma vez a educação pública fosse cobaia e instrumento de propaganda para as futuras eleições.
A Secretaria Municipal de Educação, desde que o ano letivo começou, enfatiza o ensino de Língua Portuguesa e Matemática na rede municipal. Afinal, os cadernos de revisão, as provas e os planejamentos que vieram prontos continham apenas essas duas disciplinas.
Qual foi a grande surpresa? Em cima da hora, apareceram as inscrições para a capacitação “Projeto Cientistas do Amanhã” sábado e segunda-feira! Ora, é facultativo aos professores irem ou não, fora do horário de trabalho! As pessoas têm seus compromissos! Pela ínfima taxa de inscritos, a 3ª CRE mandou que preenchêssemos um papel de justificativa pela não ida ao curso e assinássemos! Um absurdo! Agora, temos que dar satisfação de nossa vida pessoal! E passar um sábado inteiro assistindo vídeo-conferência? Quase que escrevi uma resposta malcriada. Mas, o outro dia do curso era uma segunda-feira e por ser dentro do nosso horário de trabalho tivemos que ir para a Universidade Estácio de Sá no Centro. Professores não recebem ticket alimentação porque comem a merenda da escola (frango, frango, frango, frangoooooo!!!) Nesse dia, porque estávamos fora de nosso ambiente de trabalho ainda tivemos que pagar o nosso almoço (menos 11 reais na minha conta – Calma, cheque especial!).
Apesar desses contratempos, quando cheguei no corredor para descobrir onde era minha sala, não havia ninguém disponível para orientar. Apenas listagens dos nomes nas portas. O que achei curioso, é que para não me pagar duas vezes o bônus cultura, difícil acesso entre outras coisas, a Prefeitura alega que sou uma só porque tenho apenas um CPF, apesar de ter duas matrículas. Mas, nesse curso, eu estava matriculada em duas salas diferentes! Uma no oitavo andar e outra no sétimo! Procurei alguém para resolver essa minha dúvida e não achei ninguém. Então, escolhi uma sala e fiquei.
Em uma época que a gripe H1N1 está “bombando”, colocaram a gente numa sala lotada e pequena, nem um pouco arejada! Preferimos ficar naquela sensação de calor a ligar o ar-condicionado.
O palestrante era um professor de Brasília que não conhecia em nada a nossa realidade, as tais “Escolas do Amanhã”!
Ao receber o material foi impossível não pensar: “Queria ver a prestação de contas. Será que teve licitação disso tudo?”. Não foi à toa que achei na Internet que em Brasília houve uma representação no Ministério Público para questionar o contrato de 289 milhões de reais firmado entre o governo do Distrito Federal e o Instituto Sangari para os tais kits enviados às escolas chamados “Ciência em Foco”. Se isto terminou em “pizza” como tudo no Brasil, não sei.
Enquanto isso na sala abafada, o projeto foi apresentado muito en passant. O material e a proposta do livro foram apresentados e mais uma vez aquela impressão: “Toma! Agora se vira nos 30, professor!”
Novamente, idéias muito boas, mas que não condizem com a nossa realidade! Portanto, deixo uma reflexão aqui. Na página 15 do livro do professor – Solo está escrito:: “Na sala de aula, há situações que favorecem a dispersão dos alunos, como arrumar cadeiras, preparar o material para realizar atividades ou aguardar que o professor escreva no quadro-de-giz. Por isso é particularmente importante planejar a organização das atividades, de maneira que eles se detenham o menor tempo possível em situações desse tipo.” Bem, em que momento os professores vão planejar suas aulas? Quase todos nós temos dupla e até tripla jornada! Se esses projetos não derem certo, colegas, por todas as razões óbvias, vocês já sabem até de cor quais serão as falas promovidas pela SME. Não preciso nem escrever, né? Seria retórico demais. Espero que tenham tido um bom descanso no recesso.

Texto escrito por mim e publicado no site do SEPE, dia 04/08/2009

10 comentários:

Inez disse...

Como é duro não, trabalhar em Educação, ver as coisas que acontecem e ninguém tá nem ai.
Invertam coisas mirabolantes sem conhecer a realidade da educação no país.
Dizem gastar fortunas, mas, as escolas continuam do mesmo jeito, sem condições, salários pequenos, etc.... que não preciso falar, você conhece melhor que eu.

iti disse...

o futuro ja nao pertence a nos...concerteza...
www.maquinazero.com.br

BRUNO disse...

É verdade, até há boas intenções, mas poucas delas valem algo na prática. Sei disso pois minha mãe é professora e já vou me preparando pois pretendo cursar letras neste ou no próximo semestre. Muito bom o texto, de fácil compreensão e explicativo.

Abraço!

Anônimo disse...

Olá Cristina, acredito que temos algo em comum: sou professora em formação de História e leciono há 5 anos, mas ainda não me formei. Além disso estudo jornalismo, e acredito que vá me formar daqui a uns 4 anos hehe. Ainda estou entrando no ensino público, iniciando meu estágio nas escolas estaduais, mas percebo vários problemas, que diferem um pouco da tua realidade, mas foi importante saber dela. Um abraço de uma pessoa que acredita numa outra educação, mas não uma que seja sonhada sozinha.

Júlia.
ps: vim pelo orkut.

JuANiTo disse...

Lendo esse seu post temos a noção exata de quanto sofre um professo aqui no Brasil e a total desvalorização que esse profissional tem!
Um absurdo!
Abraço!

Acorda Londrina disse...

E a ladainha continua!

"Vamos investir em educação"

Cadê o investimento ?

Só quem sofre na pele a desigualdade da eduação para saber o que é ter uma baixa qualidade no ensino publico!

Apesar de toda minha revolta tenho um paradoxo em minha mente... Acho que o ensino sendo ruim ou bom, vai de cada um saber aproveita-lo!


(dica para seu blog: tire a confirmação de palavras, vai facilitar muito a vida dos seu leitores!)

Abraço

Luís disse...

Eu, como furuto professor - sim, quero dar aulas! -, acho que há extremo abuso da disponibilidade dos profissionais; exploram-no tanto quanto podem e o recriminam quando não dá tudo de si. Mas como fazê-lo se as aulas por si só não são tudo e ainda há inúmeros outros projetos sempre vindo?
E o que dizer do que é dedicada à rede pública de ensino? No começo do ano passado, um material de revisão foi utilizado nas escolas, mas certamente nada nele podia ajudar de fato a revisar os assuntos já abordados!
E acredito que estão fazendo da gripe algo muito valoroso, financeiramente falando. Ou a gripe está matando mesmo e estão ocultado isso de nós ou eles a estão mitificando.

Daniel Silva disse...

Eu sempre achei que as profissões que deviam ser mais valorizadas são as de professor, médico e policial. É triste saber dessas coisas..

Abraço

Avassaladoras Rio disse...

Querida amiga avssaladora...
De modo geral, esses planos "Escola do Amanha" ou qualquer coisa parecida até mesmo em empresas enormes passam por este tipo de problema... Quem planeja nao vai as bases ver o que acontece de fato... não conhece a burrocracia (de burro) qu existe... e os urubus de plantão que fazem de tudo para piorar a situação e manter os ganhos com a falta de mudança... e nesse meio o marisco é o professor ou o profissional de media chefia.

Lucas S.A. disse...

Por isso que o magistério e os cursos de licenciatura são cada vez menos procurados.
Realmente, ensinar sem ser dignamente recompensado é louvável. Infelizmente, parece que nosso governo ainda não percebeu isso e os alunos também não valorizam as pessoas que podem passar o conhecimento adiante.
Na Grécia Antiga, os pedagogos eram escravos que deveriam instruir os jovens, o conceito de professor hoje não é muito diferente, e a remuneração da rede pública pode ser considerada os castigos físicos de antigamente.
Uma pena, esse conceito precisa mudar, é preciso incentivar o aluno a aprender e a administração pública, é preciso incentivar a ensinar.
www.ajudaounao.blogspot.com